domingo, 18 de setembro de 2016

A fila

Sentimentos assincrônicos. Leve taquicardia que leva ao rosto um rubor. Mãos incham e palpitam.
Sigo andando todas as milhas que devo percorrer neste maldito dia. Sento-me à sombra, na espreita, à espera de um homem que nunca vem. Não sei se um X ou um Y marcam essas ruas sem saída.
Observo a arquitetura da nesga, trincada em um terreno de vidro, emoções asfixiadas loucas para sair. Ele está vindo, faltam algumas horas.
Aguardo, aguardo, nunca vem. Cada segundo um dia inteiro, cada dia, uma semana inteira, cada semana... observo o sol batendo na rachadura, a nesga iluminada, estreito caminho de cor que ainda hei de percorrer – com as mãos inchadas, o peito apertado, as pupilas dilatadas.
Deito-me à grama, espero a semana passar. Largo pedaços de mim às plantas. O que esperar de um vestido branco jogado em um jardim de inverno? Nada. Nada mesmo.
Corro para todos os lados, o peito aperta a cada segundo, a vontade de tudo e de todos, a loucura exposta aos visitantes, as cores na rachadura. Nada faz sentido para quem não faz parte do clube de decepções, junção esta formada por um pequeno grupo de pessoas que se identificam pelas mãos inchadas em dias de calor.
Não há nada mais que eu possa fazer. Gostaria de tomar um café? Um chá? Leite morno com gotas de limão? Alice, prepare-se, neste mundo em que coelhos correm e gatos riem no escuro, os segundos duram dias, os dias duram semanas, e você voltará inteira, nenhum chapeleiro maluco há de roubar pedaços do teu cérebro.
Volto-me para a rua de chão batido, volto a observar a nesga, o terreno de vidro. Quanto tempo levará até que essa rachadura quebre de vez e este arco-íris volte a repousar nos braços do homem que hei de esperar?
Sentimentos assincrônicos. Leve taquicardia que leva ao rosto um rubor. Mãos incham e palpitam.
Delírios claustrofóbicos de calor me fazem soluçar. “Onde fica o banheiro deste lugar?” “No corredor, ali, a vinte quadras de distância” “Você pode me alcançar um copo d’água?” “Sim, claro, se estiver um pouco amarga é porque gostamos de enganar”.
Ah, quem dera todo ledo engano fosse assim distante. O rubor passa. As mãos estão menos inchadas. “Desculpe, a estrada é longa”. Travo os caminhos da conversa e lanço mão da espera. Cedo meu lugar ao idoso, faço-me ir embora.

Odeio filas em agências bancárias.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Crônicas da lembrança (parte 2)

Os pêlos finalmente encontram as mãos: gratidão, é fim do dia.

As lembranças boas vêm à mente, elas sabem muito bem como moldar minhas visões e percepções de mundo.

A música quase sempre é agradável, às vezes incomoda. Hoje, foi certeira. Lembro-me exatamente de todos os detalhes, suspiro. Enlouqueço, suspiro novamente. Busco auxílio na caixinha escondida dentro do guarda-roupa.

As alterações de percepção e visão são sempre bem-vindas contigo, querida. Amo tuas lembranças, mesmo que algumas sejam mórbidas, mesmo que não busquem me fazer prever o que haverá de ser. Gosto da sensação de alcançar o imaginário no além.


Aqueço-me de memórias. Aqueço-me de sabores. Aqueço-me de prazeres mundanos. Gratidão, é fim do dia.

sábado, 9 de abril de 2016

Crônicas da lembrança (parte 1)

Tem pessoas as quais as lembranças são difíceis de apagar. Eu costumo sofrer muito por conta dessas lembranças. Sofro por conta dos gostos em comum que temos, gostos que jamais compartilharemos juntos devido a repulsa que temos um(a) pelo(a) outro(a). Nossos caminhos cruzam e descruzam de um jeito muito estranho. Gosto e não gosto disso.

À noite, gosto de ficar nua na cama pensando em como chegamos a tal ponto. Eu sempre ao ponto do sofrimento, ao ponto do não-entendimento disso tudo. O sereno me arrepia tanto quanto a lembrança de vocês. As lembranças se tornam pensamentos obsessivos, recorrentes, sem controle. Me deixam triste a cada instante de pausa. Procuro por ti.

Gosto de andar sozinha e pensar em todas essas coisas. Filmes, músicas, livros, lugares, momentos. Constantes alucinações de vocês, pessoas que me deixam e que eu deixo também. Ou finjo deixar. Eu me marco por pouco. Eu sinto muito.

São lembranças autodestrutivas, tanto quanto os atos que cometo por diversão. Poucas drogas no mundo salvam minha alma desses pensamentos. Algumas apenas me forçam lembrar. Fazer morrer neurônios não faz morrer lembranças.


Preciso me despir dos pensamentos. Preciso me despedir de vocês.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Ensaio sobre o nada.

Toda escrita é baseada no início de um pensamento. “Quero escrever um livro” pode ser uma premissa fútil, porém se o querer estiver colocado no lugar correto, tudo bem. O lugar correto pode ser qualquer lugar que tenha uma boa base, seja uma escrivaninha ou suas próprias pernas.

Todo o santo dia – todo, mesmo – eu me pego pensando em dar minha opinião sobre as coisas que nos cercam. De nada vale, uma vez que opinião por opinião não leva à tão desejada base –  talvez só a câimbras nas pernas.

Tenho muitas câimbras, se bem gostariam de saber. Talvez eu ainda não tenha aprendido o limite do “querer”, ou mesmo o limite que meus pés podem esticar-se durante um orgasmo. Não sei. Sei que dói, bem como a opinião pela opinião.

Existem pessoas que não sabem ler, assim como existem aqueles que não querem saber, e saem lendo o que elas acreditam estar escrito. Toda a mecânica da vida está envolta em detalhes – sutis detalhes – que poucos enxergam. Quem os enxerga não é genial, é apenas mais um sensível entre tantos bocós de Nova Iorque. Cada led piscante no fundo da tua íris faz um pouco de sentido. Se ele for vermelho, indica muito mais do que paixão ou morte. Se for roxo, muito mais do que dor ou chupão.

Eu penso muito mais do que eu deveria, acredito. Inclusive nas horas em que deveria estar pensando em nada além do prazer mútuo. Penso quando estou triste – e aprofundo a tristeza a ponto de pensar em suicídio – penso enquanto ando de ônibus – e cerco-me de detalhes que poucos ao meu redor estão percebendo – penso enquanto como – e invento novos sabores para os temperos corriqueiros. Às vezes pensar é como um led piscante, porém com cores que nunca antes eu havia visto.

Formar paletas de cores na vida. Acho que esse é o real sentido de estarmos aqui criticando e criticando e criticando. Ou apenas contemplando. Contemplamos cores infinitas, que no final podem ser formadas por pigmentos brancos ou pretos. Jamais saberemos. Jamais seremos todas essas cores. Jamais confiamos em acreditar na existência de todas elas.

Transcendemos ao olho mágico, queridos. Transcendemos às coisas supérfluas que agarramos com força e acreditamos ser realidade. Transcendemos, muitas vezes, à ideologia enlatada que nos é vendida todas as manhãs, como quando aqueles “vendedores de palavras” batem às nossas portas, seja pedindo um minuto pela palavra de Deus, ou pedindo um minuto para ouvir sobre o nosso serviço de segurança de cinqüenta “reaizinhos” mensais, só pra ajudar a galera e ajudar a senhora aí também, que é vítima da violência.

Nem todo pensamento é baseado em uma escrita. Aprendemos a pensar antes mesmo de aprendermos a ler, porém não nos foi ensinado que podemos exercitá-lo. O exercício do pensamento pode gerar confusão, pode gerar o livro que você queria escrever, pode gerar apenas conspiração, o que também é bom quando combinada ao bom senso.

Pensar pode ser tão bom quanto um amor leviano. Ou tão ruim, depende do desdobramento do mesmo. Dos mesmos. Quisera eu pensar menos, ou escrever sem pensar tanto...

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Toc.

Toc, toc.
Batiam à porta e eu não sabia se aquilo era uma alucinação ou se era real. O que de fato é a realidade? O que significa tudo o que vemos?
Toc, toc.
Um pato preto anda pela sala revirada. Desde a revelação da tua falsidade eu deixei de acreditar, inclusive, em mim mesma. Semanas chorando e pasma com tremenda falta de caráter – falta o meu, falta o teu. Falta o amor dentro do ego que eu alimentei e cri ser diáfano.
Toc, toc.
“Mas que bateção é essa?” Pensam meus frívolos miolos, que buscam entretenimento em redes sociais. Sempre em vão. O tédio é dono por lá, e rebate em tudo o que se diz – inclusive no que eu reproduzo.
“Este é um conto que trata de como uma pessoa pode viver em sã consciência e em paz consigo mesma.”
Apago o que escrevi, isso não é possível na vida real. Todos apelam para algo que possa efetivamente – ou rapidamente – fazer isso por elas, não esperam pelo próprio sistema nervoso. Nervoso. Nervoso é o verdadeiro sentimento existente e enraizado em nós.
Toc, toc.
Arre, de novo! Eu já estava ciente de que era uma alucinação. Até quando esse barulho infernal vai continuar?!
Toc, toc, toc, toc, toc, toc.
Acelerado. Vai me levar à loucura. Toc. Penso. Toc. Existo. Toc. Logo. Toc. Morro.
“Tudo certo com você?” “Sim, fora essas batidas que eu não faço ideia se elas começaram em algum domínio físico ou inconsciente” “Certamente inconsciente. Não ouço nada por aqui” “Você mora no andar de cima, querido, provavelmente você esteja fazendo esse barulho sem perceber”
Sem mais intimidades com vizinhos, apesar de ele ser bem bonitinho.
Toc. Toc. Toc.
Decido levantar minhas preguiçosas nádegas e ir até o olho mágico conferir se há alguém à porta, já que o barulho não vem da janela ou da cozinha. Os pés e as pernas nuas, a camiseta velha, e o cabelo desgrenhado, não esperavam ter visto aquilo acontecer – tão indiretamente – do lado de fora.

Só eu sei o que eu vi naquela tarde cinza.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Amor ficcional

Cometemos cerca de 127 equívocos ao pensar que amamos alguém. A tão esperada frase, por vezes, fica entrelinhada por gestos e olhares que, num mínimo ponto de ação, cruzam-se e nada mais precisam falar. 10 desses 127 são equívocos sentimentais. Outros, ah, são média para fechar pesquisa. Quando meu rosto encontra os pêlos do teu peito, penso que é amor. Porém, antes de equivocar-me, olho e penso que é apenas minha boca aberta, babando, e dizendo: “nossa, que foda incrível! Posso ir para casa tomar um banho?” e nada mais. Eu espero o momento certo para dizer que te amo, e o momento simplesmente não vem. Ah, mas que surpresa! Todos os momentos são meras ilusões da vida. Penso em mais pêlos de peito do que equívocos cometidos em todo o sentimentalismo que envolve-me. De fato, seios robustos são mais verdadeiros do que pêlos. Todavia mais belos. A sensação de rolar no chão é um equívoco cometido brutalmente por todos os seres humanos. Nem todos gostam de sair rolando, porém os que gostam, ah, esses enquadram-se nas expectativas – e nos equívocos. A sensação de amor selvagem é recorrente em paixonites diárias. Gozar na janela, com um berro ensurdecedor ecoando madrugada adentro na cidade é lindo. Mas não significa que, em algum momento, eu amei você. São todos equívocos. Em minha mente, mais de 127. E 127 não é múltiplo de 3. Três: número de palavras suficientes para preencher a frase tão quista. Eu nunca jurei amor a quem acreditou na primazia do número três. Três não é suficiente para equilibrar amor, apenas para malabarizar. E malabarizo a vida, porque nesta certamente me equivoco muito mais do que nos amores. Certamente são mais de 127 vezes em que penso “te amo” ou que penso em viver mais e melhor, sem a perspectiva de realmente viver – ou de sair por aí amando.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Escrivaninhas e escravaturas

Às 22:17 sentava-me à escrivaninha. Escrevia, escrevia, escrevia: um bando de palavras vazias. Eu era escravo de mim mesmo e não sabia.
Modas rodeavam minha cabeça, eu cantarolava, por vezes estremecia... A rua, vista da janela, estava vazia. Há quem diga que, há cinco minutos, muita gente havia naquele boteco em que todos os boêmios esqueciam. Mas esqueciam de quê? Será que realmente há o que lembrar?
Eu lembrava, lembrava, lembrava até do que eu não sabia. A mulher que não tive, os filhos que não nasceram, os sobrinhos que moravam perto e não lembravam de dizer bom-dia. As flores que eu não trazia, o veneno para ratos que eu mesmo comia: a pura nostalgia. Dezessete anos sozinho e, daqui para a frente, nada mudaria. Eu era escravo de mim mesmo e não sabia.
Vovó sempre dissera a mim as coisas mais bonitas... Enumerava-as como uma lista, uma lista de truques para a vida. Eu nunca as anotei, pobre de mim, mal sabia que um dia eu as precisaria. Deixou-me, além da memória, laranjeiras, pomares e parreiras. Um dia hei de viver sob elas, sob a lua, espiando da rua a janela, com minhas duas sobrinhas fazendo graça pela casa e imitando o barulho do vento (elas imitavam mui bem feito).
Assoviei uma moda, sorri, segui sentado à escrivaninha. Às 23:47 eu ainda era escravo de mim mesmo e jamais o porquê eu saberia.
Eu esquecia, esquecia, esquecia tudo o que eu sabia. A mulher que tive, os filhos que nasceram, os sobrinhos que moravam longe e sempre lembravam de dizer bom-dia. As flores que eu trazia, o veneno para os ratos que tanto nojo eu tinha: a pura nostalgia. Dezessete anos sozinho e, daqui para a frente, tudo mudaria. A morte de minha memória era minha senhora e eu sofria.

O barulho estridente do vento congelava minha face. Fechei a janela, adormeci. Que vida vazia...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Pecado.

O que é o pecado? Eu não sei, muito gostaria de entender o que é.
Se pecado é o prazer, pois bem, muito pequei. Dei tudo o que eu achava ser o meu melhor para ele. em troca, recebi tudo o que há de ruim por ter "essa fome de amor supersônica", como já dizia Nei Lisboa.
Se pecado é amar, pois bem, pequei. Quis dar a quem eu confiei primeiro nessa vida, em troca, recebi muitas pedras. Não sei se acredito em merecimento, ou desmerecimento, pois bem, não sei dizer o que exatamente mereci ou não.
Se é pecado viver, pois bem, pequei. E tenho pecado a cada dia que passa e que sinto que não vale a pena pecar desse jeito. Em troca, bem, recebi notícias tristes e pensei sobre o que era pecar e continuar pecando.
O que é pecado? Eu não sei, muito gostaria de entender o que é.
Se é pecado ser quem a gente é, pois bem, quero continuar pecando. E confesso que errei. E confesso que chorei. E confesso que comi muitos tomates e me saíram alergias.
Não sei o valor desse grande débito que a morte e a vida me cobram. Não sei ao menos com qual moeda se paga. Fica o medo (um pecado). Fica o arrependimento (um pecado). Ficam os pensamentos ruins (uns pecados). Não sei contar nada disso.
O que é pecado? Eu não sei, muito gostaria de entender o que é.
"A repetição não soa bem, mas pode soar eficaz" me dizia o Barthes. Quem sou eu para falar ou deixar de falar dessas coisas que me cercam?
Se isso é pecado? Ora, não sei. Muito gostaria de entender o que é.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Raíz de giz de cera.

Travei. Desliguei o carro no meio da estrada. Aquele sonho era uma bad vibe, mas eu não sei porquê eu sempre o sonhava. Acordei. Olhei para os lados, ninguém, a bagunça do meu quarto dizia que eu deveria agir melhor comigo mesma e com as pessoas ao meu redor. Respirei, eu estava apenas de calcinha, o ventilador me dava frio, a janela não trazia sol. Sempre abro a mesma janela todo o santo dia, hoje com os peitos de fora, sem importar-me se os vizinhos iam ver (nunca tem ninguém nessa rua, mesmo).
Por que diabos ela ainda me procura? Não estou reclamando, apenas não vejo sentido. Eu não ofereço nada demais a ela ou a ninguém nesse mundo. Só uns pedaços de bolo e, quiçá, uns textos que costumo escrever. Parece que nada vai dar certo hoje.
Sonhar com carro significa autocontrole, minha amiga sempre me diz isso. Ela viu em minha mão uma linha que diz que eu posso ver o místico, grande coisa! Eu não preciso ver o místico, eu preciso que o místico me veja. Eu conheço o sonho e o sonho me conhece, é sobre isso que as coisas falam, é sobre isso que o Jim Morrison falava (quem sou eu pra discordar?), é sobre isso que o mundo é. Rasgar a cortina do real, sei lá, alguém me falava sobre isso ontem. Geralmente as coisas fazem sentido, mas ontem eu não entendia nada.

A felicidade dura pouco. Travei. Liguei o carro, que estava há alguns minutos parado na estrada. Morrer e aquelas viagens de DMT: ah, eu nunca estou sozinha.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Roseira de ventos

Eu sou uma grande bagunça. Vivo explosões e implosões de sentimentos. É como se eu tivesse meia dúzia de filhos da mesma idade que querem fazer de mim uma mãe louca. É como se todos os filmes não fizessem sentido. É como se o fim fosse o começo.
E é. Às vezes penso que um ciclo termina para que outro comece. Ando em círculos há vinte anos, mas é um sistema de roldanas: algumas rodas giram mais rápido, outras giram mais brandas, outras são menores, outras são maiores. Porém sempre giram, sempre lá, esperando que algo aconteça para que parem de girar. Esperando que apertem um botão para que parem de funcionar. Elas todas esperam o sistema falhar.
Eu sou uma grande estrada. Pareço infinita, porém sim tenho um fim. Pareço perdida, porém sempre chego a algum lugar.
Toda noite nublada tem estrela. Todo céu cinza é azul por dentro. Toda noite aluada tem sol detrás.


Eu.
Apenas.
Observo.
Apenas.
Para parecer que ainda vivo.

Eu não sei apontar para o norte.

domingo, 25 de maio de 2014

Estado Vago

Teu querer é um enorme vazio, um grande peso a carregar
É um acalento de devoção e desespero
Uma grande chuva que cai e aperta e molha
O meu bem estar.
A solidão é um estado eterno
Que carrego com um pouco de amar e de sofrer
Mas estar ao teu lado é um estado que não quero
Pois me mata e me come
Como um verme
Que deteriora minha alma-cadáver
Sujeito errante nesse espaço solar.
Ah, deixa eu te falar
Que nada sei, e não saberei até a verdadeira morte chegar
Deixa-me viver assim tão vaga

Que eu te deixo pensar que estou a errar.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A vida e a morte revisitadas.

Esquecidamente, existi no sofá. Meu melhor amigo era um não tão moderno micro-ondas que tem, em seu teto, uma cafeteira acoplada. Nela, os barulhos mais estranhos – os quais já estou acostumada – se fazem ao gerar os grãos moídos e torrados em saboroso líquido negro. Jazi com as pernas para cima e os cabelos arrastando pelo chão, os olhos fechados – eu era mesmo morta – e no punho direito um relógio. Eu era morta-viva de mim mesma nestes nostálgicos dias de chuva. Tão morta que nenhum espírito me observava do corredor ou da abertura que dava para a cozinha. Tão viva que as mãos dançavam em volta de minhas pernas tentando imaginar prazer. Mas o contato com as outras pessoas do mundo era tão pouco que os dedos esqueciam o sorriso escondido dentro do suor dos lábios.
Eu tinha muitos livros: acabava e recomeçava, alguns ficavam pelo caminho, outros, de tão nauseantes, tapavam as goteiras de minha casa – que a cada dia que passa, multiplicam-se – e serviam apenas para não incomodar mamãe na hora do jantar. Minha solidão é tão vasta que me faz esquecer que tenho companhia por aqui. Solidão, vasta solidão, se eu me chamasse Raimunda não seria rima, tampouco solução. Não obstante, meu favorito era Rayuela, logo depois, uma grande saga que tomou meu coração e meus dias de pré-adolescência.
As memórias consumiam minha alma até o buraco mais profundo e eu adiava todos os acontecimentos para as datas mais distantes possíveis (mesmo quando se tratava de meu aniversário). Não há o que comemorar quando se está morrendo. A vida havia me deixado de lado, e eu nada mais podia fazer senão deixá-la de lado também. Era todo meu eu buscando sentido há tempos, mas tudo o que encontrou foi sentido nenhum. Eu virei pedra em jogo de amarelinha. Eu tirei todo o álcool do gim e nada restou. Minhas mãos tremem e eu não posso conter meu Parkinson temporário. Por fim, sumi.

Reexisti, pacificamente, no sofá. Minha cama já não me aceitava mais e meu melhor amigo era um bule com muito café dentro. Todas as fumaças esverdeadas e a poeira cristalina e refinada foram vendidas. Meu século é passado, mas coexisto em harmonia, assim como toda a história antes de mim. Meu sobrenome carrega desgraça, e eu carrego poesia.

domingo, 25 de agosto de 2013

do amor ou do (des)gosto de agosto.

Mês de cachorro louco é fevereiro: nesse mês eles espumam confetes e serpentinas, e adoidados procuram bundas e peitos e se fartam em carnes venenosas. Não venha maldizer de meu agosto, que deu-me vida e friozinho com sol, que só enlouquece quando furioso esquenta, que alenta o coração de tuas amadas - essas sim mui desvairadas - esperando primavera.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Soriano

Encanta-me encantado
Cantando sola
Andando pelas ruas
Chorosa, à toa

Pés nudos
Te desnudo
Listrado, lustrado
Meias-calças rojas

Estás amando mas
Es muy temprano
Tempo de chuva
Olha a janela na lua

Teus cabelos emaranhados
Têm peixes desenhados
Em formato de cruz
Emitem o som da luz

Maria da Ana
Da Mariana
Da Joana
Às sete es muy temprano

Muy temprano...
Então dorme e demora
Pra que eu te leve
Até Santiago.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Carmen

Tua voz envolve e enrosca
Arrasta a desgraça
Bem longe de mim
Ah, te ouvir cantando assim...

Me fazes bailar e ditar
Ilusões infindáveis no ar
O meu tom desafina, cai, desfila
E tu és de um jeito que sei nem falar...

Esplendor cheio de graça
Quando chega à praça
As pessoas que passam
Param e ficam a sorrir

Encanta-me ao entardecer
À tua boca vejo o sol nascer
E o anúncio do teu nome ao pé d’ouvido
É belo, é bordado de flor, é amigo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Cecília

E ele desafina, mas quem disse, menina, que só porque a gente canta todo dia, todo dia tem que cantar bem?
A garganta seca com a alma e a vida esfria. Esfria.
Todas aquelas cartas de baralho, barulho, cortinas azuis, metáforas podres.
A gente desafina todo dia, mas canta bonito, canta com alegria.
Quem disse, menina, quem disse?...
Que todo dia o sol tem que sair e iluminar tua tez pálida, que toda noite a lua te acompanha ao caminhar pela Andradas, que todo dia os rostos esmaecidos sorrirão...
Quem disse, menina, quem dirá...
E ele anda desengonçado de tão grande que é, de tão magro, de tão fino, que ela nem consegue um canto para se escorar.
Cecília bonita, baixinha, engraçadinha. Mas é triste, triste, triste...
A garganta seca com a alma e a vida esfria. Tomara que esquente.
A esperança vai morrendo e os dias se passam. O calor é de 40ºC. O coração é russo.
Cecília bonita, baixinha, engraçadinha. E ninguém para dizer isso a ela.
E tem ninguém, não. Tem ninguém não pra dizer que o sol vai sair, namorar o frio e deixar o dia bonito. Tem ninguém não pra dizer que a vida vai seguir determinado caminho. Tem ninguém não pra mostrar que tem lado bom viver sozinho. Tem ninguém, não. Não tem alguém. Tem ninguém.
A esperança vai morrendo e os dias se passam. O calor foi embora. Imagina o coração.
Ela caminha tarde da noite na Andradas e os pensamentos se perdem.
Mas quem é que pensa nisso, menina, quem há de pensar...
Mas quem é que acredita nisso, menina... Isso nem é de acreditar...
Mas quem é que te alimenta os amores, menina... Isso não se faz.

domingo, 17 de março de 2013

Vacilos


E assim eu fico, assim fico eu
Oh, os elogios teus
E os chistes para mim...

Que triste, oh, minh’alma fica
Quando me dizes querida
E querida somente sou no prazer

E assim indigno-me, prometo não me entregar
Mas ah, meu corpo treme quando te ouço falar
Que tu me queres nua sobre tua cama

Não adianta, não adianta negar
O meu vacilo é e sempre será
A todos esses amores levianos, alimentar.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pós-conceitos da mente masculina


É a miscigenação que vem e fala: olha que bela mulata!
Pequena, peituda, compacta: e ainda vem com pouca fala!
O rosto deixa a desejar, mas quem importa?! Importa que não é torta!
Brenda, Bruna, Débora... Bosta! O nome não quer dizer nada.
De onde vem ou do que gosta? Ah, vá à merda! Basta que abra as pernas!
E assim crescem os pensamentos
sobre a menina que gosta
de literatura erótica.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Cinco dias de Marilyn


Tem uma época em que tudo é igual. As pessoas, as músicas, as cantadas, as roupas, os relacionamentos e as opiniões dos teus amigos.
DIA 1: CATAR FEIJÃO
Escrever, descrever. Ela sente uma enorme agonia, olha através da janela. O vizinho com binóculos – ele esconde o acessório – ela acena e fecha a janela. A mãe sempre dá um sermão devido à nudez da filha, mas o que fazer? Ela está dentro da própria casa.
DIA 2: CONVITES
O dia nunca chegará, você nunca será convidada. Fique aí: assista e espere.
DIA 3: AMORES
Mulheres difíceis, homens previsíveis. Sexo é o que interessa. Quando interessa.
DIA 4: AMIZADES
Não ligam mais? Que pena... Será que não é resposta a algo que você fez? Ou será que apenas cansaram desse teu jeito fora do mundo?
DIA 5: VIDA
Em fevereiro, andar de ônibus pode ser mais tranquilo. Talvez teu signo até apareça na Bus TV. Talvez o T3 fique preso na Silva Só. Silva só. Só. E você não se chama Marilyn.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Curtas Gaúchos


Me mostra uma coisa que ninguém nunca viu. Me mostra o que não importa para outrem. Me dá um beijo de verdade e depois me esquece. Me diz que eu sou ruim, mas diz que eu sou a pior de todas pra eu sentir que faço bem até as piores coisas.

As conversas deles só funcionavam com hiperlink, citações não faltavam, histórias reais e inventadas, as ruas de Porto Alegre eram descritas com clareza. Será que faltava dizer, fazer, assistir, ou dar?

Lá onde ninguém me via, eu chorava por ela.

Continuar nem sempre é começar por onde havia parado, mas é começar algo novo e bonito. Às vezes se parece com o que aconteceu, mas nunca é a mesma coisa. Nem a mesma continuação. Continuar ação. Cinco da manhã, sem café, sem cigarros, e o cheiro da rua é tão forte, me chama tão alto. Será que é noite de lua?