domingo, 17 de março de 2013

Vacilos


E assim eu fico, assim fico eu
Oh, os elogios teus
E os chistes para mim...

Que triste, oh, minh’alma fica
Quando me dizes querida
E querida somente sou no prazer

E assim indigno-me, prometo não me entregar
Mas ah, meu corpo treme quando te ouço falar
Que tu me queres nua sobre tua cama

Não adianta, não adianta negar
O meu vacilo é e sempre será
A todos esses amores levianos, alimentar.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pós-conceitos da mente masculina


É a miscigenação que vem e fala: olha que bela mulata!
Pequena, peituda, compacta: e ainda vem com pouca fala!
O rosto deixa a desejar, mas quem importa?! Importa que não é torta!
Brenda, Bruna, Débora... Bosta! O nome não quer dizer nada.
De onde vem ou do que gosta? Ah, vá à merda! Basta que abra as pernas!
E assim crescem os pensamentos
sobre a menina que gosta
de literatura erótica.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Cinco dias de Marilyn


Tem uma época em que tudo é igual. As pessoas, as músicas, as cantadas, as roupas, os relacionamentos e as opiniões dos teus amigos.
DIA 1: CATAR FEIJÃO
Escrever, descrever. Ela sente uma enorme agonia, olha através da janela. O vizinho com binóculos – ele esconde o acessório – ela acena e fecha a janela. A mãe sempre dá um sermão devido à nudez da filha, mas o que fazer? Ela está dentro da própria casa.
DIA 2: CONVITES
O dia nunca chegará, você nunca será convidada. Fique aí: assista e espere.
DIA 3: AMORES
Mulheres difíceis, homens previsíveis. Sexo é o que interessa. Quando interessa.
DIA 4: AMIZADES
Não ligam mais? Que pena... Será que não é resposta a algo que você fez? Ou será que apenas cansaram desse teu jeito fora do mundo?
DIA 5: VIDA
Em fevereiro, andar de ônibus pode ser mais tranquilo. Talvez teu signo até apareça na Bus TV. Talvez o T3 fique preso na Silva Só. Silva só. Só. E você não se chama Marilyn.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Curtas Gaúchos


Me mostra uma coisa que ninguém nunca viu. Me mostra o que não importa para outrem. Me dá um beijo de verdade e depois me esquece. Me diz que eu sou ruim, mas diz que eu sou a pior de todas pra eu sentir que faço bem até as piores coisas.

As conversas deles só funcionavam com hiperlink, citações não faltavam, histórias reais e inventadas, as ruas de Porto Alegre eram descritas com clareza. Será que faltava dizer, fazer, assistir, ou dar?

Lá onde ninguém me via, eu chorava por ela.

Continuar nem sempre é começar por onde havia parado, mas é começar algo novo e bonito. Às vezes se parece com o que aconteceu, mas nunca é a mesma coisa. Nem a mesma continuação. Continuar ação. Cinco da manhã, sem café, sem cigarros, e o cheiro da rua é tão forte, me chama tão alto. Será que é noite de lua?

domingo, 20 de janeiro de 2013

Das love (hearts on fire)


Sou aquela menina de cabelo curto, roupa preta, sapatos legais, escorada à parede. Pode me chamar de Nin. Está vendo todas essas pessoas ao meu redor? Nenhuma até agora veio falar comigo. É a minha festa de formatura da oitava série e eu não sei o que estou fazendo aqui, ninguém é meu amigo ou sequer me cumprimenta.
Tenho 14 anos e moro com minha avó. Ela é gente boa, mas tem que ter paciência. Sempre vamos à praia em fevereiro. E advinha: esse ano não vamos. Não sei porquê, mas não vamos. Ficar em Porto Alegre é bom quando a gente sabe o que fazer.
Fui encontrar uma amiga, a única que tenho, Paula o nome dela. Ela mora em minha rua, e pra falar a verdade, nem sei como nos tornamos amigas. Acho que ela é diferente das outras gurias, não sei.
Paula fala pra cacete, sempre com assuntinhos sobre amor. “Vocês sofrem muito por amor pra quem viveu tão pouco”. Ela sempre fica emburrada quando digo isso. Eu também vivi pouco, e é por isso que não sofro. Deixei de ser criança semana passada e elas com essas bobagens. Ainda tem muita gente pra conhecer.
Eu nunca gostei de ninguém. Meninos e meninas me desinteressavam completamente. “E os namoradinhos?” “Matei todos, tia” – era sempre assim. Às vezes eu procurava o problema em mim, mas percebi que o problema está no mundo. Meu mundinho com filmes, música brega e cigarros escondidos da vovó era bem mais interessante do que qualquer “namoradinho”.
Até que aquela menina escorada à parede viu alguém que não era seu colega – e era tão estranho quanto ela mesma – estava ele do outro lado do salão, também escorado à parede, cabelos pretos, terno, tênis, fumando e olhando para todos com tédio.
- Vejo muito tédio em seus olhos.
- Ah, eu tinha que trazer minha irmã, aquela loirinha dançando. Você também é irmã de alguém?
(A irmã dele era a mais vagabunda da turma)
- Não, não. Infelizmente, estou me formando também. E não sei o que estou fazendo aqui. Tem um cigarro?
- Tenho. – ele me olhou por inteiro e me deu um cigarro – Mas tu não te pareces como essas guriazinhas da idade da Gabriela.
- É um defeito de fábrica, eu acho.
- Talvez não. Elas são meio bobas, tu não me aparentas ser boba.
- Prazer, Nin.
- Me chamo Gabriel. E acho difícil tocar alguma música legal aqui, quer ir lá pra fora?
- É um favor que me fazes.
- Legal teus sapatos.
E assim, eu e o Gabriel fomos a noite inteira. Talvez a vida inteira. Ninguém sabe. Pensando bem, seria ótimo ter alguém assim pra rir e ouvir música brega.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Da fé, do amor e do lar.


Tantas eram as maneiras de fazê-lo, mas Marina não sabia por onde começar. Tinha medo, estava apreensiva. Procurou o grass que estava escondido. Queria ouvir Pete Doherty cantar. Ligou para sua melhor amiga, 52 minutos a falar. Pensou na corda, pensou na faca, no estilete, na tesoura, na pistola e no 8º andar.
Pessoas muito mais problemáticas andando pelas ruas e Marina pensando em se matar.
Luzia, que era louca de verdade, gostava de viver. Para ela cada dia era um dia diferente, o que a chateava era sempre o mesmo lugar. Aqueles muros e paredes, os amigos incompreendidos, as visitas mensais da mãe – e semanais da melhor amiga de escola – a chateavam profundamente.
Marina pensou melhor e saiu para caminhar. Bairro bom, Moinhos de vento. Andou pela Goethe, 24 de outubro, Doutor Timóteo... decidiu pegar o ônibus. Desceu na parada do hospital psiquiátrico. Deu umas voltas por ali, achou um tanto quanto sinistro, quis voltar, mas não pode deixar de reparar em uma menina loira, muito branca, de profundos olhos verde-mar.
Luzia tinha mais um dia comum, porém, de sua janela, via uma moça chorosa, com muitas olheiras, pele amorenada, olhos cor de mel. Acenou com sentimento de esperança.
Marina se concentrou nos olhos, que estavam longe, mas de alguma maneira sorriam para ela.
Luzia entristeceu de a moça não retornar seu gesto. Saiu da janela.
Marina saiu correndo até a parada, pegou o ônibus de volta. Dessa vez foi até a Zona Sul. Andou pela orla do Guaíba, foi até a avenida Praia de Belas. De lá, caminhou até o centro, cansou. Pegou o ônibus até sua casa, sem esquecer os profundos olhos verde-mar.
“Luzia, querida, hora do chá”. Ela não esquecia da moça.
Marina lembrava toda noite daqueles olhos.
Uns olhos. Uns braços. Cabelos ao vento.
Luzia havia recebido a noticia de que logo sairia de lá.
Arrepios. Era o vento minuano.
Corre, Marina, não te atrasa! Mas te cuida, olha que o ônibus pode te atropelar.
Olívia andava distraída ouvindo músicas em seu celular, quando uma moça apressada passou correndo em sua frente, quase lhe derrubou.
Era na manhã de domingo que o médico assinaria sua alta. Só mais uns dias e Luzia encontraria a liberdade.
“Olívia, tudo bem com você?” “Tudo mãe” “Tem certeza?” [...]
18h. Vamos, Marina, hora de sair do teu trabalho medíocre e ir para casa.
Amanhã é domingo.
Na Visconde do Herval, Olívia e a família de Luzia a esperavam sorridentes.
Luzia chegou e abraçou Olívia. Estava tão feliz por estar em casa, perto das pessoas que ama.
Olívia estava tão bonita. Estava com os cabelos pretos em um corte chanel. Vestido vermelho e um sapatinho azul royal , uma fita – do tom do sapato – amarrada no cabelo. Se os pais ali não estivessem, a encheria de beijos e carícias.
“Luzia, que tal irmos ao parcão após o almoço?” “Se meus pais estiverem de acordo...” “Filha, você se sente segura para ir sozinha com Olívia? Se quiseres, vamos todos juntos.” “Tudo bem mãe, mas se não for pedir demais, será que podes nos buscar de carro ao anoitecer? Eu e Olívia vamos de ônibus, a volta é que fica complicada”
Marina tinha o dia de folga e chamou Sophia, sua melhor amiga, para passear no parcão.
Eu não tinha vontade alguma de largar a mão de Luzia. Quantas saudades daquelas mãos delicadas, brancas, pequenas, castas... quantas saudades da alegria que elas me proporcionavam. Queria beijá-las até enlouquecer, queria fazê-las minhas. Luzia era minha, e ninguém nesse mundo me faz tão feliz!
Parou para amarrar os sapatos e, quando levantou-se, viu os olhos. Profundos. Verde-mar. Era ela. “Muito obrigada” E beijou-lhe o rosto. “Você me salvou de uma grande tragédia”
Luzia reconheceu a morena entristecida e só soube lhe dizer “você deveria ter acenado de volta”.
Partiram. Cada qual com sua amiga, seus problemas. Cada uma para seu lado. “Tudo bem, meu amor?”
Olívia beijou Luzia como quem desse o último beijo da vida, passou a mão dentre as madeixas loiras e embaraçadas da amiga e sentou-se em um banco a chorar. Luzia se ajoelhou à sua frente: “calma querida, tudo vai passar...”

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Cardápio


Foram-se as duas e com elas minhas expectativas.
De vida.
De morte.
De dinheiro.
De futuro bom.
Li tua visão através de um espelho quebrado, me sinto lisonjeado.
A outra, face do prazer.
Prazer, me chamo Laisa.
Chegaram outras duas e não mais achei as expectativas.
A vida lida é mais bem compreendida.
Escrita é difícil, mas pior é ser vivida.
Vocês sabem o que significa epifania?
“Tem a ver com física?”
Metafísica talvez, querida.
Que bobas essas meninas de hoje em dia.
Aceitas um chá? “Que coisa de velho”
Desculpa se você gosta de mim assim, com 33 anos.
“Não disse que gosto de você, você é bom no que faz, só isso”
Desculpa mocinha, se você não sabe escrever.
Ela sabia desde sempre onde haveria de se meter.
Nunca mais como minha vizinha.