sábado, 20 de outubro de 2012

Sala Redenção


Talvez ele estivesse lá fora, ela não sabe, ainda não saiu.
Ele não queria saber se ela estava lá dentro, se quisesse, teria ao menos espiado.
Eram 11 fileiras, ela estava na sexta, logo abaixo do projetor.
O filme movia as personagens ao som das moedas e o brilho do diamante.
Não era triste, mas ela queria chorar.
Não era triste, mas ele lembrava daqueles que já haviam morrido.
O filme acabou e o sol batia na porta da sala redenção.

domingo, 30 de setembro de 2012

De outras Bárbaras


Chico cadê? Chico Sumiu!
Anaura cadê? Anaura caiu!
Chico cadê? Chico saiu!
Bamboleia moça que nasceu em Abril

Meti-me em festa de São João
Comendo pipoca, tomando quentão
Lá bati com o Chico que veio dançar
Cantou-me um verso de arrepiar

Nesse verso dizia que a banda passava
Com ela o amor que o mundo levava
Que alma mais triste de moça cansada
O Chico sabia mui bem, era Bárbara.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A Bela do Lago

Quando os meninos correram e eu fiquei, senti que algo era diferente. Talvez eu não fosse tão gente. Talvez eu fosse ninguém.


De pele alva e olhos mui chorosos, em dias de chuva, o azul acinzentado ficava meio violeta. De cabelos negros e largos, longos cachos, coração partido, sentimentos corrompidos, lá eu ia, sozinha, com a ajuda de ninguém.

Eram meninos de outrem. Pertenciam aos outros ou a alguém.

A neblina secava meus olhos e minhas lágrimas mesmo assim caíam... Do outro lado do lago eu a vi. Ruiva dos cabelos largos como os meus, mas ela era nua, como bebê, eu desejei-a por minutos. Ela entrou no rio e me chamava. Ouvia-se de longe sua bela voz.

Seus olhos verdes quase desbotavam e também choravam. Seca. Seios rijos. Bela. Eu a beijei. O beijo da morte, da meia-noite, do jogo das sombras.

Nós afundamos e eu nunca mais subi.

sábado, 7 de julho de 2012

Sós de vela

Freneticamente dancei a música branca que entrava por meu nariz


E uma bela moça passou por minha janela

Era ela! Era ela!

Renata que eu quisera, Vitória que exagera



Depois de umas doses de uísque a solidão acaba

Mas ainda lembro-me dela

O nome composto e o teu rosto

Marcados em nuvens aleatórias



Minha morada já não é boa

Todos foram e deixaram-me nela

Nos quadros o pó, na cama a cadela

Nos meus olhos a tristeza de não ver-te, ó bela.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Simpatia do significado

Amarrei a fita pra não esquecer de você


Pra eu não esquecer do teu sorriso

Daquela piscadinha no corredor

Significa algo?



Lembra que eu desafinei a voz

Que era pra você rir

Pra você gostar do meu humor

Significa algo?



Aquele bilhete que mandaste

Era pra ser sério, mas eu ri

O que dizias com aquilo?

Significa algo?



Aquele cinema que nunca fomos

Ou aquela tarde que você não pode

O teatro de rua contando nossa história

Significa algo?



As bandas na Cidade Baixa

As voltas na Redenção

Tu sonhavas com o Parcão

Significa algo?



Quero te levar pro século XIX

Pra seres minha tísica de cor morta

Pra eu não te tocar e te amar de longe

Significa algo?



Procurei teu nome

Vi tua foto

Senti saudades...

Significa algo?

sábado, 26 de maio de 2012

Tudo o que eu queria para você

Eu queria, ria, escondia, você via


Enquanto ela chorava, eu abraçava uma garrafa de tequila

Dizendo que “yo no soy yo porqué ahí nada es real”

Ela era a mais bela, mas chorava, ninguém entendia.

Dizendo que “i don’t know who you are, but it mixes lust and luxury”

Mas Marta não lembrava no dia seguinte, ninguém lembrava na real.

Mas Marta não lembrava o dia seguinte, ninguém sabia.

Today was the día de los amores, la noche de los lovers

Je ne me souviens pas, pero sé que ontem não era um bom dia para Luzia

Ele ria, ele ria, ele ria, Pedro se divertia, mas ela não lembrava de ontem

E por isso chorava.

Mais uma cerveja e o círculo vicioso se completava.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Luíza e a Banda

“Amor, a bateria está muito pesada.”
“Querida, você não entende de música.”

“Mas amor, dava pra pegar mais leve.”

“Querida, você não entende de música.”

“Arthur, a guitarra deveria ser mais rápida.”

“Luíza, você não entende de música.”

“Arthur, por favor, você também a me criticar?”

“Você também me critica, Luíza.”

“Gu, o baixo está fora do ritmo.”

“Cale a boca, Luíza.”

“Mas...”

“Luíza vá dormir.”

Luíza dormiu e nunca acordou. A banda fracassou.