segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Roseira de ventos

Eu sou uma grande bagunça. Vivo explosões e implosões de sentimentos. É como se eu tivesse meia dúzia de filhos da mesma idade que querem fazer de mim uma mãe louca. É como se todos os filmes não fizessem sentido. É como se o fim fosse o começo.
E é. Às vezes penso que um ciclo termina para que outro comece. Ando em círculos há vinte anos, mas é um sistema de roldanas: algumas rodas giram mais rápido, outras giram mais brandas, outras são menores, outras são maiores. Porém sempre giram, sempre lá, esperando que algo aconteça para que parem de girar. Esperando que apertem um botão para que parem de funcionar. Elas todas esperam o sistema falhar.
Eu sou uma grande estrada. Pareço infinita, porém sim tenho um fim. Pareço perdida, porém sempre chego a algum lugar.
Toda noite nublada tem estrela. Todo céu cinza é azul por dentro. Toda noite aluada tem sol detrás.


Eu.
Apenas.
Observo.
Apenas.
Para parecer que ainda vivo.

Eu não sei apontar para o norte.

domingo, 25 de maio de 2014

Estado Vago

Teu querer é um enorme vazio, um grande peso a carregar
É um acalento de devoção e desespero
Uma grande chuva que cai e aperta e molha
O meu bem estar.
A solidão é um estado eterno
Que carrego com um pouco de amar e de sofrer
Mas estar ao teu lado é um estado que não quero
Pois me mata e me come
Como um verme
Que deteriora minha alma-cadáver
Sujeito errante nesse espaço solar.
Ah, deixa eu te falar
Que nada sei, e não saberei até a verdadeira morte chegar
Deixa-me viver assim tão vaga

Que eu te deixo pensar que estou a errar.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A vida e a morte revisitadas.

Esquecidamente, existi no sofá. Meu melhor amigo era um não tão moderno micro-ondas que tem, em seu teto, uma cafeteira acoplada. Nela, os barulhos mais estranhos – os quais já estou acostumada – se fazem ao gerar os grãos moídos e torrados em saboroso líquido negro. Jazi com as pernas para cima e os cabelos arrastando pelo chão, os olhos fechados – eu era mesmo morta – e no punho direito um relógio. Eu era morta-viva de mim mesma nestes nostálgicos dias de chuva. Tão morta que nenhum espírito me observava do corredor ou da abertura que dava para a cozinha. Tão viva que as mãos dançavam em volta de minhas pernas tentando imaginar prazer. Mas o contato com as outras pessoas do mundo era tão pouco que os dedos esqueciam o sorriso escondido dentro do suor dos lábios.
Eu tinha muitos livros: acabava e recomeçava, alguns ficavam pelo caminho, outros, de tão nauseantes, tapavam as goteiras de minha casa – que a cada dia que passa, multiplicam-se – e serviam apenas para não incomodar mamãe na hora do jantar. Minha solidão é tão vasta que me faz esquecer que tenho companhia por aqui. Solidão, vasta solidão, se eu me chamasse Raimunda não seria rima, tampouco solução. Não obstante, meu favorito era Rayuela, logo depois, uma grande saga que tomou meu coração e meus dias de pré-adolescência.
As memórias consumiam minha alma até o buraco mais profundo e eu adiava todos os acontecimentos para as datas mais distantes possíveis (mesmo quando se tratava de meu aniversário). Não há o que comemorar quando se está morrendo. A vida havia me deixado de lado, e eu nada mais podia fazer senão deixá-la de lado também. Era todo meu eu buscando sentido há tempos, mas tudo o que encontrou foi sentido nenhum. Eu virei pedra em jogo de amarelinha. Eu tirei todo o álcool do gim e nada restou. Minhas mãos tremem e eu não posso conter meu Parkinson temporário. Por fim, sumi.

Reexisti, pacificamente, no sofá. Minha cama já não me aceitava mais e meu melhor amigo era um bule com muito café dentro. Todas as fumaças esverdeadas e a poeira cristalina e refinada foram vendidas. Meu século é passado, mas coexisto em harmonia, assim como toda a história antes de mim. Meu sobrenome carrega desgraça, e eu carrego poesia.

domingo, 25 de agosto de 2013

do amor ou do (des)gosto de agosto.

Mês de cachorro louco é fevereiro: nesse mês eles espumam confetes e serpentinas, e adoidados procuram bundas e peitos e se fartam em carnes venenosas. Não venha maldizer de meu agosto, que deu-me vida e friozinho com sol, que só enlouquece quando furioso esquenta, que alenta o coração de tuas amadas - essas sim mui desvairadas - esperando primavera.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Soriano

Encanta-me encantado
Cantando sola
Andando pelas ruas
Chorosa, à toa

Pés nudos
Te desnudo
Listrado, lustrado
Meias-calças rojas

Estás amando mas
Es muy temprano
Tempo de chuva
Olha a janela na lua

Teus cabelos emaranhados
Têm peixes desenhados
Em formato de cruz
Emitem o som da luz

Maria da Ana
Da Mariana
Da Joana
Às sete es muy temprano

Muy temprano...
Então dorme e demora
Pra que eu te leve
Até Santiago.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Carmen

Tua voz envolve e enrosca
Arrasta a desgraça
Bem longe de mim
Ah, te ouvir cantando assim...

Me fazes bailar e ditar
Ilusões infindáveis no ar
O meu tom desafina, cai, desfila
E tu és de um jeito que sei nem falar...

Esplendor cheio de graça
Quando chega à praça
As pessoas que passam
Param e ficam a sorrir

Encanta-me ao entardecer
À tua boca vejo o sol nascer
E o anúncio do teu nome ao pé d’ouvido
É belo, é bordado de flor, é amigo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Cecília

E ele desafina, mas quem disse, menina, que só porque a gente canta todo dia, todo dia tem que cantar bem?
A garganta seca com a alma e a vida esfria. Esfria.
Todas aquelas cartas de baralho, barulho, cortinas azuis, metáforas podres.
A gente desafina todo dia, mas canta bonito, canta com alegria.
Quem disse, menina, quem disse?...
Que todo dia o sol tem que sair e iluminar tua tez pálida, que toda noite a lua te acompanha ao caminhar pela Andradas, que todo dia os rostos esmaecidos sorrirão...
Quem disse, menina, quem dirá...
E ele anda desengonçado de tão grande que é, de tão magro, de tão fino, que ela nem consegue um canto para se escorar.
Cecília bonita, baixinha, engraçadinha. Mas é triste, triste, triste...
A garganta seca com a alma e a vida esfria. Tomara que esquente.
A esperança vai morrendo e os dias se passam. O calor é de 40ºC. O coração é russo.
Cecília bonita, baixinha, engraçadinha. E ninguém para dizer isso a ela.
E tem ninguém, não. Tem ninguém não pra dizer que o sol vai sair, namorar o frio e deixar o dia bonito. Tem ninguém não pra dizer que a vida vai seguir determinado caminho. Tem ninguém não pra mostrar que tem lado bom viver sozinho. Tem ninguém, não. Não tem alguém. Tem ninguém.
A esperança vai morrendo e os dias se passam. O calor foi embora. Imagina o coração.
Ela caminha tarde da noite na Andradas e os pensamentos se perdem.
Mas quem é que pensa nisso, menina, quem há de pensar...
Mas quem é que acredita nisso, menina... Isso nem é de acreditar...
Mas quem é que te alimenta os amores, menina... Isso não se faz.