- Edu... O que se faz quando se quer alguém impossível de se ter?
- Nada é impossível, Clara.
- Que frase mais auto-ajuda! Já são 5h30... Por que não vamos ali no posto comprar mais cervejas?
- Pode ser.
Edu e Clarinha acabavam de fazer 18 e ela desfrutava desse momento como ninguém. Eles eram primos, nascidos com 2 dias de diferença. Desde crianças se davam bem, na transição para a adolescência, curtiam as mesmas festas, as mesmas músicas. Era Janeiro, calor em Porto Alegre, e o posto 24 horas estava sempre lá para atender aquele pessoalzinho atrás de cerveja gelada, às 5 da manhã.
- Sabe Clara, essa tua história de gostar do professor... é chato. Ele é casado, tem uma filha, a mulher tem cara de louca, é capaz até de te matar se te pegar olhando diferente pra ele! – Edu solta uma risada – Pois ééé... desiste!...
- Eu tento, meu primo, eu tento... mas o que eu posso fazer se tudo o que ele faz parece deslumbrante? E a Ana sim, ele tem uma cara de completamente dissimulada! – eles riem juntos – Mas ela é super querida, trata bem todos os alunos... E é por isso que eu tento, ela é legal.
- Então maninha, tenta um pouco mais... será tortura, mas não por completo...
Eles subiram a Dr. Barcelos como quem sobe o morro e ainda pararam embaixo de uma árvore, para conversar e bebericar um pouco mais da cerveja.
- Eu gosto daqui, sabe... Tristeza... o nome é tão bonito quanto o bairro.
- Tenho saudades de morar aqui, apesar de meu bairro também ser legal.
- Teu não se compara ao meu, né Edu!!! Olha onde tu mora, no Moinhos de Vento, aaaa, vai te catar!
- Hahaha, mas não tem clubes com vista pro Guaíba, nem toda essa melancolia que tu tens aqui. Gosto da Zona Sul, parece menos cidade... apesar da minha rua ser tranquila.
Ela deita a cabeça no ombro de Edu e cochila... uns minutos depois, ele cochila também. Tão queridinho o jeito como eles adormecem. Acordam com o barulho do primeiro Liberal passando na esquina e vão para casa.
- Onde vocês andavam? Vocês sabem que horas são?
- Sim mãe... estávamos aqui na rua, não precisava se preocupar.
- Estou indo para o serviço, filha. Tem lasanha na geladeira, depois tu e o Edu almoçam direitinho, tá?
É incrível como crescemos e as mães continuam a tratar-nos como se fossemos criancinhas... Edu riu e resmungou um “tchau, tia”, enquanto Dona Lia se retirava.
- Edu, sabe quem vai vir aqui amanhã? Ou melhor, hoje?
- Who?
- A Luíza.
- Mas ela não tá no Canadá? Hahahahahaha
- Haha, muito engraçaaaado! Tu sabes beeem onde a Luíza está, não é mesmo?
Luiza era uma amiga de Flávia, a vizinha de Clara. Edu era apaixonado por ela. Como ele mesmo dizia “não consigo resistir ao perfume que ela usa e aos sapatinhos vermelhos. Luíza me encanta!”
Clarinha dormiu no sofá e Edu em um colchão, na sala também. Acordaram com a campainha tocando, era Flávia. Edu atendeu a porta.
- Oi Eduuuuuu! Tua prima tá por aí?
- Tá sim, entra aí!
- E aí maluca! – resmungou Clara, ainda deitada.
- E aííííí! A Luíza vai chegar daqui a pouco, disse pra ela vir aqui direto.
- Tá bom... que horas são mesmo, hein?
- 14h50. – disse Edu – Shall we lunch?
- Yeeep. Let’s go!
Flávia era novinha, tinha 13 anos e falava muita besteira. Mas como era adiantada em sua escola, andava só com um pessoal mais velho. Enquanto Edu e Clara almoçavam, Flávia falava pelos cotovelos até que tocou a campainha. Edu foi correndo atender. Era ela.
- Oi Edu.
- Olá, Dorothy!
- Sempre viajando nos meus sapatinhos vermelhos... – ela solta uma risadinha e entra.
- LULUUUUUUUU – Flávia faz seu fiasco diário ao encontrar uma amiga.
- E aí maluca número 2! – diz Clara.
- Hey yo Silver! – responde Luíza, fazendo uma careta. – Quanto tempo, não é mesmo?
- Pois é guriazinha... e o Edu ainda é fissurado nos teus sapatinhos vermelhos!
Luíza era uma guria bem bonita. Cabelos não muito curtos, castanhos, aquele tom diferenciado, meio que puxando pro ruivo, mas natural e todo picotadinho. Ela tinha todo um estilo: calça jeans que ela pegou das roupas da avó, direto dos anos 50, blusinha de botão, num xadrez azul marinho com branco e, como sempre, os sapatinhos vermelhos do Mágico de Oz. Ela tinha lá seus 15 anos, mas parecia ter uns 19, tanto de rosto, como de corpo ou pela inteligência.
- Então Gasoline Girl, vamos jogar CS?
- CS não né, Summertime Cowboy!
- Flávia, acho que estamos sobrando nessa brincadeira...
- Shiiiiu, cala a boca, Clara! É capaz de ele nos convidar pra jogar CS, daí!
Enquanto Flávia e Clarinha riam e conversavam sobre qualquer coisa, Edu e Luíza ficavam falando de jogos e se apelidando com nomes de músicas, atores, filmes e bandas... era isso que Luíza gostava nele. Era isso que Edu gostava nela. Eles combinavam, eles se gostavam, todos viam. Menos Luíza.
- Gente que calooooooor! – Flávia resmunga – Por que não vamos lá pra rua?
- Lá está quente igual, Flavinha.
- Mas pelo menos tem vento.
- Tá, vamos então. – diz Luíza – Isso está com cara é de escolha da Clarinha, não é? Esperando pra ver se o Claus aparece.
- Cale a boca, Luíza. Não tem nada a ver comigo, não.
Descendo as escadas, dão de cara com Ana, a esposa do professor de Clara. Ela resmunga um “oi, boa tarde” e eles sorriem.
- Tudo bem, Clara? Pensou naquilo que te falei?
- Edu, me esquece...
Edu, Clara, Flávia e Luíza caminhavam pela Dr. Barcelos e esqueciam um pouco do calor. Andavam em direção ao Guaíba, tomando sorvete, conversando as besteiras que todo adolescente conversa. Namorados, amigos, professores, deboches, e coisa e tal. Apesar da diferença de idade, todos se davam bem.
Se Edu vai ficar com Luíza? Talvez. Nunca se sabe quando um amor leviano pode dar certo.
Se Clara consegue conquistar o professor? Obviamente não, mas daqui uns cinco anos, quem sabe?
E Flávia, um dia ela vai amadurecer e perceber o mundo como gente grande? Certas pessoas nasceram para ser a alegria que movimenta os dias monótonos de trabalho pesado.
Mas sempre há algo interessante para aprender no calor de Janeiro, em Porto Alegre.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Sorte, Marina
De que vale você ter amigos de carne e osso quando o único amigo que realmente te entende está lá do outro lado da rede e você nem sabe se ele realmente é aquilo que diz.
-Marina, você sabe que eu te adoro?
-Sei Lucio, mas e você sabe que eu não?
-Não precisa dizer assim na cara, não é?
-Sabe, ser adolescente é andar em uma estrada cheia de bifurcações. Você escolhe um lado e daqui a pouco se perde, mas quando você chora porque se perdeu, aparece outra bifurcação e ela te mostra um caminho iluminado, estilo Revolução Francesa. Você se apaixona no meio desse caminho e daí surge um buraco e sua amada vai embora. É isso o que acontece com a gente.
-Eu não sei, Marina. Ou eu já passei por isso e foi tão despercebido que não analisei desse jeito. Minha adolescência foi muito boa.
-Que sorte a sua. Acho que as gurias geralmente são mais complexas com isso. Mas com certeza você conheceu alguém, além de mim, que também sofria por não gostar de ser adolescente.
-Talvez. Talvez o nome dela fosse Marina também, haha.
-Não brinque. Quando vamos nos encontrar?
-Quando você quiser.
-Posso sair de casa agora?
-Onde você vai?
-Onde você não quiser.
-Então me encontre ali na Barros, mais pro lado da casa do filme, ali, no inicinho da Cristóvão, ok?
-Tudo bem.
Pegou o ônibus, era um tanto perto de sua casa, porém não se arriscou a caminhar. Ela vestia uma camiseta do David Bowie e uma calça apertada. Lucio tinha cara daqueles argentinos sem-vergonha que se vê nos filmes que concorrem no festival de Canes. Ela gostava dele. Ele gostava dela. Eles não suportavam um ao outro.
-Chegou rápido, senhora atrasada.
-Cale a boca, você é quem sempre atrasa!
-E o meu beijo?
-Quando eu realmente souber quem tu és, receber-lo-há.
-Sou eu, Lucio, nascido em Uruguaiana, bem antes de você pensar em nascer. Quando você brincava de boneca e não sabia o que era sexo, eu já sabia muito bem o que era isso.
-Eu não brincava de boneca. E você mente, não é tão velho assim!
-Ah, esqueci que tu eras o menininho da casa. Como está tua mãe? Eu conheço ela de Uruguaiana.
-Mentiroso... nem ao menos sabes o nome dela! hahaha!
-Vamos fugir, Marina?
-Pra onde?
-Pra minha casa.
-E por que eu aceitaria?
-E perderia a oportunidade de sua vida?
-E desde quando essa é a oportunidade da minha vida?
-Desde que começamos aquela conversa louca na comunidade do David Bowie, lembra? Eu sabia que você estaria com essa camiseta, hahaha.
-Lembro...Dê-me alguns dias para pensar e lhe responderei.
-Não demore. Eu posso encontrar alguém que queira mais rápido do que imaginas.
Marina torceu um bico e ele pegou em sua mão. Lucio a olhou nos olhos e ela soltou a mão. Havia decidido. Nunca teria tanta sorte na vida...
-Marina, você sabe que eu te adoro?
-Sei Lucio, mas e você sabe que eu não?
-Não precisa dizer assim na cara, não é?
-Sabe, ser adolescente é andar em uma estrada cheia de bifurcações. Você escolhe um lado e daqui a pouco se perde, mas quando você chora porque se perdeu, aparece outra bifurcação e ela te mostra um caminho iluminado, estilo Revolução Francesa. Você se apaixona no meio desse caminho e daí surge um buraco e sua amada vai embora. É isso o que acontece com a gente.
-Eu não sei, Marina. Ou eu já passei por isso e foi tão despercebido que não analisei desse jeito. Minha adolescência foi muito boa.
-Que sorte a sua. Acho que as gurias geralmente são mais complexas com isso. Mas com certeza você conheceu alguém, além de mim, que também sofria por não gostar de ser adolescente.
-Talvez. Talvez o nome dela fosse Marina também, haha.
-Não brinque. Quando vamos nos encontrar?
-Quando você quiser.
-Posso sair de casa agora?
-Onde você vai?
-Onde você não quiser.
-Então me encontre ali na Barros, mais pro lado da casa do filme, ali, no inicinho da Cristóvão, ok?
-Tudo bem.
Pegou o ônibus, era um tanto perto de sua casa, porém não se arriscou a caminhar. Ela vestia uma camiseta do David Bowie e uma calça apertada. Lucio tinha cara daqueles argentinos sem-vergonha que se vê nos filmes que concorrem no festival de Canes. Ela gostava dele. Ele gostava dela. Eles não suportavam um ao outro.
-Chegou rápido, senhora atrasada.
-Cale a boca, você é quem sempre atrasa!
-E o meu beijo?
-Quando eu realmente souber quem tu és, receber-lo-há.
-Sou eu, Lucio, nascido em Uruguaiana, bem antes de você pensar em nascer. Quando você brincava de boneca e não sabia o que era sexo, eu já sabia muito bem o que era isso.
-Eu não brincava de boneca. E você mente, não é tão velho assim!
-Ah, esqueci que tu eras o menininho da casa. Como está tua mãe? Eu conheço ela de Uruguaiana.
-Mentiroso... nem ao menos sabes o nome dela! hahaha!
-Vamos fugir, Marina?
-Pra onde?
-Pra minha casa.
-E por que eu aceitaria?
-E perderia a oportunidade de sua vida?
-E desde quando essa é a oportunidade da minha vida?
-Desde que começamos aquela conversa louca na comunidade do David Bowie, lembra? Eu sabia que você estaria com essa camiseta, hahaha.
-Lembro...Dê-me alguns dias para pensar e lhe responderei.
-Não demore. Eu posso encontrar alguém que queira mais rápido do que imaginas.
Marina torceu um bico e ele pegou em sua mão. Lucio a olhou nos olhos e ela soltou a mão. Havia decidido. Nunca teria tanta sorte na vida...
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Sug. O Que É o Amor pra VOCÊ?
amor é esperar que ela venha no próximo ônibus, mesmo sabendo que ela está bem longe
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Despertar
Fomos felizes sem reclamar
Da água gelada
Das ondas do mar
Fomos tristes sem dizer
Que te odeio
Sinto desprazer
Meu sonho acabou
Meu amor acordou
Nunca falou
Nunca reclamou
Eu joguei fora
Amor de outrora
Tentei revanche
Agora, desmanche...
Da água gelada
Das ondas do mar
Fomos tristes sem dizer
Que te odeio
Sinto desprazer
Meu sonho acabou
Meu amor acordou
Nunca falou
Nunca reclamou
Eu joguei fora
Amor de outrora
Tentei revanche
Agora, desmanche...
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Agosto
Eu vou te deixar sem saída no esgoto
Cheirando azitromicina com aspirina
Overdose na esquina do desgosto
Quem me dera ter nascido em Agosto!
Há uma tampa no esgoto
Se você achar, sai de lá.
Mas tem uma coisa que você nunca saberá
Eu nasci mesmo em Agosto!
Sete shots de tequila não vão te matar
Mas ache a saída e descobrirá
Há um demônio que não perdôo
É um demônio de Agosto.
Sorrio para o sol que você não vê
Sete minutos para o amanhecer
Eles nunca chegarão
Nem em Agosto, nem no verão.
Cheirando azitromicina com aspirina
Overdose na esquina do desgosto
Quem me dera ter nascido em Agosto!
Há uma tampa no esgoto
Se você achar, sai de lá.
Mas tem uma coisa que você nunca saberá
Eu nasci mesmo em Agosto!
Sete shots de tequila não vão te matar
Mas ache a saída e descobrirá
Há um demônio que não perdôo
É um demônio de Agosto.
Sorrio para o sol que você não vê
Sete minutos para o amanhecer
Eles nunca chegarão
Nem em Agosto, nem no verão.
domingo, 13 de novembro de 2011
Janela do Imperial
Ela estava ali, na janela do oitavo andar.
Ela estava ali, ia se atirar.
Eu estava ali, pensando no amor.
Eu estava ali, não queria sentir dor.
Por favor, ó Deus, deixe-a viver.
Por favor, ó Deus, que outro venha a morrer.
Ela estava ali, um sapato jogou.
Ela estava ali, para o céu olhou.
Eu estava ali, prestes a rezar.
Eu estava ali, consciência a coçar.
Por favor, ó Deus, deixe-a morrer.
Por favor, ó Deus, que outro venha a viver.
Ela estava ali, seu corpo no chão.
Ela estava ali, com ela a multidão.
Eu estava ali, senti-me culpado.
Eu estava ali, psicológico abalado.
Por favor, ó Deus, leve-me com ela.
Por favor, ó Deus, não havia moça mais bela.
Ela estava ali, ia se atirar.
Eu estava ali, pensando no amor.
Eu estava ali, não queria sentir dor.
Por favor, ó Deus, deixe-a viver.
Por favor, ó Deus, que outro venha a morrer.
Ela estava ali, um sapato jogou.
Ela estava ali, para o céu olhou.
Eu estava ali, prestes a rezar.
Eu estava ali, consciência a coçar.
Por favor, ó Deus, deixe-a morrer.
Por favor, ó Deus, que outro venha a viver.
Ela estava ali, seu corpo no chão.
Ela estava ali, com ela a multidão.
Eu estava ali, senti-me culpado.
Eu estava ali, psicológico abalado.
Por favor, ó Deus, leve-me com ela.
Por favor, ó Deus, não havia moça mais bela.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Ela como sempre quis.
Se esqueceu de apagar o cigarro, de apagar a luz, de apagar sua vida.
Se esqueceu de acender o cigarro, de acender a luz, de ascender às ideias.
Ela era iluminista.
Verdadeira revolucionária.
Ela era anti-cristo.
Viciada em outras drogas.
Se lembrou de comer a maçã envenenada, de apagar a luz e de escrever a carta.
Se lembrou de ser alguém, de sentir frio e de pegar o casaco.
Ela era bonita.
Verdadeira lolita.
Ela era fútil.
Paris Hilton pobre.
Lagarteou, cheirou, lambeu.
Deu, comeu, vendeu.
Apagou.
Se esqueceu de acender o cigarro, de acender a luz, de ascender às ideias.
Ela era iluminista.
Verdadeira revolucionária.
Ela era anti-cristo.
Viciada em outras drogas.
Se lembrou de comer a maçã envenenada, de apagar a luz e de escrever a carta.
Se lembrou de ser alguém, de sentir frio e de pegar o casaco.
Ela era bonita.
Verdadeira lolita.
Ela era fútil.
Paris Hilton pobre.
Lagarteou, cheirou, lambeu.
Deu, comeu, vendeu.
Apagou.
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